Existe um jeito estranho de existir: estar presente, mas inacessível de certa forma. Eu acordo, faço o que precisa ser feito, respondo à vida. Ainda assim, sinto que algo primordial não me alcança. Como se o verbo existir enviasse mensagens que não chegam até mim.
Coleciono um espaço interno para afetos almejados, experiências interessantes, planos futuros e versões melhores de mim. Esse espaço nunca fica vazio. Fica impressionantemente reservado. E o problema de viver reservando tantas coisas assim é nunca se sentar, finalmente, à mesa.
Quando me deito antes de dormir, percebo que passei mais um dia com a sensação de ter apenas observado a vida acontecer. Desligo o abajur sentindo que apenas sobrevivi, mas não vivi de fato. Que isso mude.
E quem sabe, amanhã, diante da mesa da vida, apreciarei existir, sem pressa, sem medo. Simplesmente vivendo, inteiramente.
