Histórias cruzadas
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29 de novembro de 2025

Palavras

I.

No corredor sem portas,
 uma palavra compassiva
aponta a saída.

II.

As palavras
que me salvam
não pedem testemunhas.

20 de agosto de 2025

Escolhas

Quando a vida avança, algo muda em nosso olhar.

Já não ficamos ansiosos por preencher os espaços vazios com outras pessoas. Passamos a escolher com mais calma aqueles com quem queremos dividir tempo e memórias. É como se o coração aprendesse, aos poucos, a não se distrair com relações rasas.

Os encontros tornam-se mais raros, mas também mais valiosos e verdadeiros. Descobrimos que nem todos ficarão para sempre, e que isso não é necessariamente uma perda, mas pode ser um grande aprendizado. E, acima de tudo, a vida nos ensina a reconhecer quem nos fortalece e quem apenas consome a nossa preciosa paz.

Ser adulto não é acumular quaisquer responsabilidades afetivas, mas aprender a podar aquilo que não floresce. No meio dessa triagem cuidadosa, percebemos um segredo simples: a maturidade não nos afasta das pessoas, apenas nos aproxima de quem realmente vale a pena, deixando a alma mais leve e o tempo mais significativo.

E assim aprendemos que a vida não se trata de ocupar todos os vazios, mas de valorizar cada presença que realmente faz sentido.

10 de agosto de 2025

O bálsamo das memórias

Eu tenho uma memória de amor;
lá eu me revigoro.

Há dias que pesam.
Há dias em que não conseguimos acompanhar o sol que brilha lá fora.

Quando escrevi esse pequeno poema, tinha vivido um desses dias. Nada parecia dar certo. O cansaço gritava tão alto. Minha vontade de sorrir era quase nula. Fazia tudo na base de uma força que nem sei bem como nomear.

Até que vi o livro, não um livro qualquer, mas um presente cheio de significados, que guarda as sensações boas e o amor que vivi com alguém que foi e sempre será muito especial na minha vida.

No dia em que recebi esse mimo, lembro da sensação de alegria e gratidão que me preencheu. Lembro de ler a dedicatória e sentir uma emoção forte. Ali havia muito amor e consideração, e o livro continua carregando esse sentimento, funcionando como um lembrete constante desse amor.

Eis uma memória de amor que, no exato momento em que recordei, fez surgir o sorriso que teimava em não aparecer naquele dia difícil. Não só me fez sorrir, mas também me revigorou… Senti como se recebesse um colo repleto de paz. E, sobretudo, naquele exato instante, não doía tanto enfrentar aquele turbilhão de sentimentos difíceis de traduzir.

Mas o que é uma memória de amor?

É quando registramos um momento marcado por amor que, mesmo sendo breve, tem efeitos que não são apenas instantâneos, mas duradouros. Assim, torna-se um alicerce secreto que nos abraça, que nos acolhe e que nos faz bem. Como um bálsamo que nos traz a certeza de que a vida vale a pena, apesar dos possíveis desafios, das dores inevitáveis e das lutas quase sempre presentes.

Em tempos de dias nublados por dentro, a lembrança de um gesto de amor sincero pode ser um farol. Quando tudo parece ruir, é nela que reencontramos o lado bom da vida. Isso é tão precioso. Talvez o amor seja isso: a parte da vida que não desaparece, mesmo quando tudo parece ruir. A luz que persiste onde a sombra insiste existir.

Hoje, quando os dias pesam e o vazio ecoa, volto para esta e todas as outras memórias de amor que, felizmente, se edificaram na minha alma. Não como fuga, mas como um retorno ao que ainda me motiva... Que ainda me cura... Que ainda me revigora.

Citação publica em 11 de outubro de 2024.

8 de agosto de 2025

Ausências

Há ausências
que falam a língua
da saudade;
outras, de paz.

5 de julho de 2025

Histórias que nos encontram

Uma certa vez, eu estava na minha livraria favorita - na seção de livros de suspense. Distraída, não prestava atenção em nada ao meu redor. Isso é bem comum comigo quando fico imersa em algo que me encanta. 

Contudo, naquele dia, algo me chamou muito a atenção.

Não muito distante de mim, uma senhora, muito empolgada, mostrava seu livro favorito para a neta. O livro era um clássico da literatura mundial: Jane Eyre, da escritora Charlotte Brontë. Já tive a oportunidade de ler essa obra e, com certeza, recomendo. Foi publicada em 1847 e apresenta uma personagem cujo comportamento está muito além de seu tempo.

A neta da simpática senhora pegou o livro com cuidado e perguntou: 
- Vovó, por quê? Por que esse livro, entre tantos outros que a senhora já leu, é o seu favorito?

A vovó prontamente respondeu, com um sorriso: 
- Eu adoro uma protagonista que seja forte e corajosa, minha querida. Em certos aspectos, eu me vi nela.

Ah, os livros…
Eles nos encontram. Na sua totalidade, ou não, sempre há uma palavra que nos abraça - que nos marca de uma maneira para a qual, muitas vezes, faltam palavras para explicar.

Talvez todos nós estejamos, no fundo, em busca de uma história que nos entenda. E, quando a encontramos, é impossível não querer compartilhá-la, especialmente com alguém que amamos.

Essa cena me fez lembrar de quando terminei de ler, por exemplo, Água Viva, de Clarice Lispector. Fiquei tão empolgada, mas tão empolgada, que saí recomendando o livro para pessoas mais próximas - com a alegria de quem descobre algo precioso.
(E foi mesmo: descobri, ali, a minha vontade de escrever.)

E, sempre que posso, continuo recomendando. Essa obra… e tantas outras histórias que me fascinam. Porque certas histórias não passam por nós impunemente. E isso não vale apenas para os livros. Toda forma de arte tem esse dom: o de fazer a gente absorver coisas especiais - querer recomendar é inevitável. 

É como se disséssemos:

“Isso aqui me tocou de forma especial. Talvez possa te tocar também.”

Recomendar algo que nos abraçou é, muitas vezes, um jeito delicado de abraçar quem é importante em nossas vidas. Porque, no fundo, toda história que nos encontra de verdade… nos transforma. E, por mais íntima que seja essa transformação, ela merece - muitas vezes - ser compartilhada.

27 de junho de 2025

Tua lembrança

Tenho
um céu pequeno
guardado
no porta retrato.

21 de junho de 2025

Destaque

Observo o mundo
como quem sublinha
um livro emprestado.

24 de abril de 2025

Pausa

Lendo o passado,
eu tropecei numa vírgula
tão tua.

4 de abril de 2025

Contadora de histórias

A arte
espalha segredos
que nem o tempo
consegue guardar.

9 de março de 2025

Na grande poesia...

Somos todos
poesias incompletas,
tentando versificar
os vazios
uns dos outros.

21 de fevereiro de 2025

Não observado

Às vezes, 

não sou
o que você
acha.

Sou
o que você
não entende.

17 de fevereiro de 2025

Saudade

Mesmo na ausência,
o amor se estica
como um fio invisível,
unindo corações
distantes.

1 de fevereiro de 2025

Solitude

Cada saudade é um amor
que aprendeu
a permanecer sozinho.

17 de novembro de 2024

Versificados

Ninguém sai de um poema
da mesma forma
que entrou.

5 de novembro de 2024

Assim

A saudade dorme
até uma simples lembrança
despertar algo sobre você.

28 de outubro de 2024

Realista

Acordou de vez. 
E, assim, acabou
perdendo-se dos sonhos.

7 de julho de 2024

Na janela

§

no mesmo horário,
sento perto da janela
para sentir o frescor do ar,
para admirar o entardecer
e para buscar o teu sorriso

que está poeticamente registrado
na memória do meu bem-querer.

19 de junho de 2024

Notas sobre nós

I. 

E se a vida tivesse nos oferecido
uma outra chance?

Talvez, meu caro,
eu não seria mais
tão tua...

II.

Tudo que eu sei:
é que somos
uma lembrança que ainda
pulsa.

4 de maio de 2024

Especiais

Há pessoas
que nos dão
inspiração.

Outras,
poesia.

31 de março de 2024

Condição imprescindível

Eu te chamarei
de poesia,

quando tu
versares
em mim

o verbo amar.
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